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... a viagem é pra dentro!

Postado em Nordeste2017

2017, 12 de março…

Foi o dia mais tranquilo de pedal até hoje, 80km em 5 horas, cheguei em Jijoca de Jericoacoara/CE e logo depois de encontrar um lugar seguro para deixar a bicicleta, peguei o transporte para Jericoacoara, que me deixou na frente do Camping do Natureza, que tem toda a estrutura, inclusive Internet por 15 reais a diária.

O interessante ficou por conta de como consegui chegar aqui de forma tão tranquila.

Faltava um pouco mais de 20km para Jijoca, eu estava numa cadência bem tranquila e sem trânsito algum, ao longe ouvi um barulho de motor e de repente esse motor estava do meu lado, na mesma velocidade, me acompanhando bem devagar. Olhei pro lado, uma moto, a pessoa de capacete com a viseira toda escura e fechada. Me olhando, ainda com a viseira fechada, gritou: “Tu te garante né!”. Olhei pra ele, fiz que não entendi e ele repetiu: “Tu te garante!?”

Estava começando a ficar tenso quando ele abriu a viseira rindo, como que maravilhado ao me ver pedalando começou a conversar e perguntar sobre a viagem, desse jeito mesmo, conduzindo a moto ao meu lado, porém dentro da BR. Até que passou um caminhão no mesmo sentido da gente e um carro no sentido contrário e quase aconteceu um acidente bem feio. Depois disso ele parou a moto no acostamento e conversamos durante uns 5m, ele me disse seu nome, João, seu número de telefone e me explicou como lhe encontrar em Jijoca, disse que queria me ajudar. Chegando e Jijoca, logo na entrada, senti como é forte a exploração turística do lugar e me mandei pro centro da cidade para encontrar sr. João, que me recebeu muito bem e me indicou um lugar bom e barato para almoçar. Após o almoço nos encontramos na praça da cidade e fomos até sua casa.

Sua família me recebeu de braços abertos e com muita curiosidade, uma conversa gostosa e divertida, cheia de perguntas. Preparei a mochila e sr. João me levou de moto até o transporte para Jericoacoara. Tortuga ficou na casa deles e eu tranquilo. Quando comentei com ele, agradecendo a ajuda, que depois a gente acertava um valor por deixar a bicicleta lá, ele me falou: “Fica tranquilo que o Brasil é nosso!” (com um sorriso de orelha a orelha)

Os 2 dias que passei em Jericoacoara foram importantes para a recuperação física, além disso pude aproveitar para conhecer praias lindas. Numa manhã, no alto de uma colina, vi um nascer do sol tão lindo que minha alma inundou de paz e felicidade. Esse era o momento que estava buscando desde que saí de casa com Tortuga… mas só agora estava percebendo que precisava me abrir mais e sair da minha zona de conforto para viver isso… sinto que viagem de bicicleta tem um sentido muito mais profundo do que imaginava… estava diferente em relação a tudo, a frequência em que a vida estava interagindo comigo era outra e até minha crença no ser humano estava mudando… a viagem é pra dentro!

Jericoacoara é um paraíso bem explorado turisticamente. Tem até carro de caipirinha em cima da duna Por do Sol. Praticamente todas pessoas que NÃO estavam trabalhando nas pousadas e comércio da cidade eram estrangeiros e a grande maioria europeus.

Aproveitei pra descansar bastante e conhecer justamente essas pessos que estavam lá trabalhando. Muita gente de Jijoca, mas também um grande número de viajantes. Lá percebi que era possivel continuar viajando com trabalhos temporários. Tinha muita gente fazendo isso e também recebi a oferta para trabahar num restaurante, que logicamente não aceitei, pois estava de férias e tinha que voltar.

Pra sair de Jericoacoara acordei cedinho, antes das 4:30AM. Desmontei acampamento no escuro mesmo e tomei um café antes de pegar o transporte para Jijoca. Consegui entrar no primeiro carro da manhã, antes das 7AM já estava em Jijoca. Fui até a casa da família do sr. João e novamente fui recebido com muito carinho e um café da manhã pra dar força pra viagem. Dona Vandinha, esposa do sr. João, preparou uma sacola de frutas para a viagem que foi muito importante. Agradeci todo o carinho e ajuda… e lá fomos nós!


Saí de Jijoca às 8AM e ao meio dia, depois de 67km estava em ITAREMA, logo descobri um lugar barato para almoçar. Depois do almoço fui até uma das praias da cidade. Chegando na praia da Barra (Kite Lagoon) encontrei Francisco, funcionário de uma das pousadas da praia. Ele sentou pra conversar comigo, contei da viagem e perguntei se ele sabia de algum lugar pra acampar. Ele disse que como não tem turistas nessa época poderia acampar ali mesmo, só teria que conversar com o vigia da praça pra receber a liberação oficial. Muito gentil, me convidou para lavar minhas roupas na pousada em que trabalha e também para tomar um banho. Lindo demais!

Usei o tanque, lavei as roupas, e tomei um banho muito gostoso no chuveirão de praia da pousada. Conheci a esposa de Francisco, a filha e um casal de amigos. Tomamos um super café da tarde com pão, bolo e uma conversa bem animada. Fiquei esperando o vigia da praça até às 20hrs e nem sinal do cara… foi quando a esposa de Francisco disse que eu poderia colocar minha rede lá na pousada e dormir tranquilo, mesmo percebendo Francisco um pouco contrariado aceitei na hora. Antes de dormir dei uma geral em Tortuga, encontrei uma maneira mais eficiênte de fixar os alforges traseiros e consertei o furo da barraca, que provavelmente aconteceu pelo atrito do stick que segura ela ao bagageiro dianteiro durante o transporte.

Novamente acordei cedo, dormi pouco por causa das muriçocas (aterrorizante!!). Quanto estava com tudo pronto, só faltando fazer meu cafézinho, Francisco acordou e me acompanhou enquanto fazia meu desayuno.

Saí a baixo de chuva, muita chuva, que durou o dia inteiro. Pelo menos ela tornou menos sofrido o pedal de 112km até Flecheiras/CE. E graças a chuva decidi ficar em uma pousada e não na barraca, o mundo estava caindo lá fora. A pousada mais barata que achei e sem café da manhã, saiu por 60 reais, que graças a chuva que não parou durante toda a noite, se mostrou um sábio investimento.

Uma coisa muito inusitada conteceu nesse dia… Assim que cheguei na pousada comecei de tirar os alforges da bicicleta e apareceu uma pessoa pra conversar comigo, seu nome é Eduardo, conversou um pouco e perguntou se eu estaria de boas pra conversar mais a noite, respondi que sim, então ele disse que às 19hrs voltaria para conversar e me dar várias dicas. Ok… ele foi e continuei organizando tudo, almocei, tomei um banho quente na pousada, fui ao mercado e voltei pra pousada… literalmente esqueci que havia conversado com Eduardo e estava tão cansado que dormi às 18hrs… 1hr depois ouvi gritos vindos da rua me chamando, pensei “como assim alguém tá me chamando?? estou sonhando??”… era Eduardo, o cara tinha realmente voltado… e a partir daí a viagem mudou bastante.

Passei a noite com Eduardo e seus amigos, fui até a casa deles e foi muito muito bacana… entre os amigos de Eduardo estava um músico do qual sou muito fã de longa data e foi demais conhecer Manu Chao na vida cotidiana. Eduardo e todos que estavam na casa me deram muitas dicas de lugares lindos para conhecer no Ceará e em todos outros estados que ainda iria passar. Eduardo escreveu em meu diário um roteiro fácil e seguro para cruzar Fortaleza (essa era uma grande dúvida que tinha, principalmente porque estava evitando cruzar grande cidades), também me passou contato de várias pessoas que iriam me receber nas cidades que eu ainda passaria, além de disponibilizar sua casa em Icapuí/CE quando eu passasse por lá (dentro de mais alguns dias).

Saí da casa deles com comida, vários contatos, rotas, muitos abraços e um destino certo para o próximo dia. Depois da nossa conversa eu havia mudado o plano de viagem dos próximos dias. O pedal do próximo dia seria gigante… havia mudado a rota e faria em 1 dia uma distância um pouco menor da que tinha planejado anteriormente para dois dias, aproximadamente 160kms.

Necessitava de um estratégia e ela foi simples, acordar cedo, um café reforçado - que fiz no quarto da pousada mesmo -, ir comendo pelo caminho (porções menores) e muita água.

Bora cruzar FORTALEZA e conhecer Jonas na praia do Japão em Aquiraz/CE!

Que dia fantástico, duro, me colocou no meu devido lugar de ser insignificante, mas pertencente ao movimento do universo, onde tudo que se harmoniza com esse movimento é belo, pacífico e amoroso, mesmo quando é preso a dogmas e é objeto de manipulação. Parte integrante e força motriz que impulsiona a estaca que fura o próprio peito e rouba a alma. Em algum momento mais pessoas vão acreditar num mundo realmente livre de preconceitos e agressão.

Durante o pedal, lá pelo km 120 do dia, Edu, Manu e Klelia passaram por mim na estrada e pararam pra me dar um abraço, água, rapadura e a motivação que eu precisava para cumprir aquele dia.

Me conectei em diversos momentos ao vento pela respiração. Só iria parar para almoçar quando chegasse em Iparana, na entrada de Fortaleza. Edu havia sugerido o restaurante do SESC, lá poderia almoçar bem por uma valor justo e ainda teria a possibilidade de ver o projeto peixe-boi do SESC. Infelizmente o segurança do SESC que não me deixou entrar no restaurante porque eu estava de bicicleta, depois de insistir bastante desisti e segui viagem sem almoçar… muito triste saber que do mesmo modo que as pessoas se solidarizam e querem se aproximar de quem está numa cicloviagem também existem pessoas totalmente contrárias… enfim, só me cabe aceitar.

Cheguei na casa de Jonas às 18:30 após 11hrs e 177kms… ele já estava saindo para trabalhar. Mas antes me recebeu com muita alegria, fiquei super confortável em sua casa e ele foi trabalhar.

Nos 3 dias que passei em Aquiraz conversei muito com Jonas, ele já havia viajado de bicicleta, de Fortaleza até Natal, e estava empolgado em me receber. Conheci sua família e com eles visitei as praias de Arquiraz e um pouco de Fortaleza. Foram dias muito tranquilos e lindos, pude descansar bastante. Aprendi com Jonas a utilizar SRO (Soro de Rehidratação Oral)… um pózinho que contém os sais minerais e eletrólitos que não conseguimos repor somente bebendo água… fácil de encontrar em qualquer farmácia e com preço acessível (de 3 a 5 reais o sachê que misturava em 2litros de água), foi muito importante para pedalar grandes distâncias num clima tão quente.

Conversei com Jonas, que é médico, sobre alimentação e hidratação. Estava preocupado porque acabei emagrecendo muito pedalando grandes distâncias em dias consecutivos, minha média nos dias de pedal não baixava de 100km e em 5 dias eu havia emagrecido 7kg, estava pesando 57kg e a bicicleta 50kg… era uma equação complicada de resolver, mas depois de conversar sobre isso com ele consegui bolar uma estratégia que me ajudou nos dias seguintes. O essêncial era manter-me bem hidratado, fiz uso do SRO e me comia mais vezes durante o dia. Teve alguns dias que eu consumi entre 8 ou 10 litros de água.

Nesse tempo em Aquiraz aproveitei para levar Tortuga pra oficina, ela recebeu uma geral e um novo acessório, um descanso de guidom (também conhecido como clip - aquele apoio no guidom das bicicletas de triathlon). Com ele posso pedalar apoiando os cotovelos no guidom e largar o peso das costas, também diminui considerávelmente o atrito com o ar porque altera totalmente a aerodinamica.

Numa dessas saídas pra praia, com Jonas e Briba, primo de Jonas que hoje está viajando de Kombi pelo Brasil (aqui o link para o projeto de Jéssica e Danilo). Enquanto eles surfavam eu estava sentado na beira da praia do Pontão do Iguape, era um dia lindo de sol forte, que começou carrancudo depois de uma noite inteira de chuva. Tive um momento tão lindo por sentir essa nova frequência da vida e da natureza … abaixo uma breve transcrição do diário naquele momento.

Esse ponto é o mais mágico, enquanto eu me dedico a doar o que tenho de melhor, recebo esse melhor sempre multiplicado por uma função logarítmica infinita de aprendizado sobre tudo, o universo e seres humanos de uma forma integrada. De todas as direções, com todas as intensidades e com o poder de transmutar o mais rígido fragmento do meu racional, que insiste em querer encontrar um padrão “confortável e seguro”. NÃO MEXA NO MEU PRAZER!

Estava entregue e aberto a tudo que a estrada estava me oferecendo, pessoas, lugares, conversas, sorrisos, podia sentir até a brisa mais suave da manhã com uma intesidade totalmente diferente do que já havia sentido… a partir desse momento sabia que não tinha mais volta, a pessoa que tinha começado essa viagem é completamente diferente de quem está respirando nesse momento.

Nomade de bicicleta!

Continuar...

É pra frente que se anda, com calma e coração aberto!