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É pra frente que se anda, com calma e coração aberto!

Postado em Nordeste2017

A saída de Barreirinhas me apresentou um desafio muito maior do que poderia imaginar…

Após conversar bastante com locais decidi seguir pela estrada de piçarra que liga Barreirinhas a Paulino Neves e corta o Parque dos Pequenos Lençóis. Mas as chuvas da noite anterior e uma comitiva de caminhoes carregando as partes dos gigantes cataventos do parque heólico que está sendo construído na região deixou a estrada praticamente intransitável. Essa estrada foi aberta justamente para construção do parque eólico, antes era um caminho secundário utilizado pelos locais, hoje os mesmo sofrem com restricões para utilizacão da estrada… que é um inferno para quem não está dentro de um caminhão ou 4x4.

Foi pedal mais difícil da minha vida até hoje com certeza, dos 83km, foram mais de 5horas só para os primeiros 40km entre Barreirinhas e Paulino Neves. Nessa primeira parte poucas vezes cheguei a velocidade de 10km/h … era muita lama, pedra solta, areia, sol e vento (muito vento) contra. No final do dia foram quase 9 horas pedaladas, o maior tempo até hoje desde o início da viagem.

Ao mesmo tempo que tive muita dificuldade com a lama, pedras, areia e vento, tive a oportunidade de conhecer o parque dos “Pequenos Lençóis”, que infelizmente foi bastante prejudicado para construção do parque eólico e principalmente pela estrada utilizada para a construção dele. Estrada que cortou dunas, lagos e muita vegetação nativa. Depois desse martírio e beleza, mais 43km para chegar a Tutóia, que é linda e tem um naufrágio bem na frente da praia central da cidade. Como a maré estava baixa coloquei Tortuga na areia e fomos conhecer a linda praia até e encontrar um lugar massa pra um mergulho antes de procurar uma pousada, comer e descansar.

O pedal do dia seguinte foi o maior da viagem, isso devido ao impresvisto de ficar 2 dias sem internet nem sinal de celuar. Não pude falar com a pessoa que me hospedou e isso gerou uma das maiores aventuras da viagem. Abaixo segue um relato que publiquei no dia seguinte ao acontecido.

Uma história pra descontrair:

08 de março de 2017

Depois de 11 horas pedalando finalmente cheguei em Barra Grande no Piauí. Nos 185km que fiz no dia cruzei a fronteira estadual entre o Maranhão e o Piauí. Saí de Tutóia/MA às 8horas da manhã e cheguei em Barra Grande/PI depois das 9horas da noite. Isso porque já fazia 2 dias que eu estava sem sinal de celular e não conseguia atualizar os mapas que eu tinha baixado em São Luís/MA e só iam até Parnaíba/PI.

Cris, que mesmo hoje que estou na casa dele, ainda não o conheço pessoalmente, me ofereceu a casa de praia que tem com alguns amigos, se eu fosse passar em Parnaíba. Logo, eu sabia que precisava chegar até Parnaíba e lá encontrar o endereço que ele havia me enviado e que eu pensava estar com o mapa offline por te tudo até Parnaíba. Tinha me programado para pedalar 120km, que já é bem forte pra mim com a bike pesando aproximadamente uns 50kg.

Quando cheguei em Parnaíba, 115km depois, felizmente o sinal do celular voltou e consegui atualizar o endereço da casa do Cris. Que era em Barra Grande, mais 70km da onde eu estava. Eram 4 horas da tarde, fiz um cálculo rápido, avaliei minhas condições até ali e decidi seguir, pois lá eu poderia descansar bastante antes de continuar já que teria sua casa disponível. Finalmente cheguei em Barra Grande no Piauí depois das 8hrs da noite e levei mais de 1 hora para encontrar a casa da família do sr. Dão, o vizinho que estava me esperando desde o Carnaval com a chave da casa.

Quando cheguei - agora pensa num cara barbudo, com bandana na cabeça, calça colada (de pedalar), mochila de hidratação nas costas com a mangueirinha pra frente e com uma cara de louco acabado depois de ter pedalado 185km, chegando em sua casa no meio da noite - "seu" Dão ficou muito desconfiado e assustado. Perguntei se ele conhecia seu Dão e ele me disse que sim, mas não falou que era ele por 2 vezes antes de eu conseguir explicar porque estava ali naquela hora. Ele e sua esposa, Maries, foram muito gentis e me ofereceram uma cadeira pra sentar, mas eu já estava jogado no chão, e um copo de água gelada enquanto ele confirmava com o pessoal da casa se aquela história era verídica.

Eles foram uns anjos, me acolheram com um café quentinho e um pão com manteiga, depois me levaram até a casa de Cris e seus amigos. Lavei o rosto e me joguei na cama!!

Gratidão e paz!!

Barra Grande é um lugar mágico, um espaço criado no universo para o ser humano se conectar navamente com o uninverso. O céu aqui é diferente, as nuvens são tão altas e distribuídas de uma forma que tenho a impressão que consigo perceber uma curva no espaço, lá no horizonte é possível perceber uma queda, uma curva pra baixo.


Toda paz e tranquilidade de Barra Grande foram muito importantes para uma recuperação mais completa e também para traçar os próximos trechos da viagem. Nesses dias também aproveitei para conhecer a cidade vizinha, Cajueiro da Praia, e conversar muito com as pessoas da cidade.

Hora de partir, me despedi de seu Dão e dona Maries. Eles foram anjos no meu caminho e tenho certeza, que apesar de breve, construímos uma amizade de muito respeito e adminiração. Estou tranquilo, em paz e forte para continuar a viagem.


O próximo destino é Camocim/CE, cerca de 100km de distância e mais uma fronteira estadual pela frente.

Depois de um pouco mais de 40km no Ceará, ainda faltando uns 25km para chegar em Camocim, já sinto a dureza do clima no Ceará. Mesmo pedalando perto do litoral o sol “arde”, o calor que vem do chão cria aquela distorção de imagem no horizonte. Até o vento, que vem com força de frente é quente e sufocante. Já estava procurando uma sombra pra fazer uma parada pro almoço a quase 1 hora. De repente avistei uma casinha de barro com dois cajueiros na frente, comecei a andar bem devagar para ver se avistava alguém. Foi quando seu Raimundo apareceu na janela e me chamou, perguntei se podia ficar ali na sombra do cajueiro, ele me mandou entrar em um telhadinho do lado da casa, disse que era pra ficar tranquilo e trouxe um prato de arroz com feijão e farinha e uma garrafa de água gelada. Depois de comer sentamos para conversar um pouco e chegou muita gente, vários amigos dele que trabalham na região e próximo desse horário sempre passam na casa dele pra dar um “salve”… virei atração em segundos e comecei a responder muitas perguntas, mas mesmo depois de uma conversa bacana eles continuaram me chamando de maluco e me dando vários conselhos sobre como seria bom se eu largasse essa vida e fosse construir um família… hehehehehe… agradeço a todo instante essa maluquisse que me acomete e agradeço mais ainda por estar em paz e conseguir viver com essa grande diferença entre a maneira que vivo e como os outros acham que deveria ser.

Depois de sair da casa de seu Raimundo, faltava 22km para chegar em Camocim, o trocador diânteiro da bicicleta simplesmente parou de passar as marchas. Pedalei assim até a cidade é entrei na primeira loja de bicicletas que encontrei, la conheci Renato, o mecânico da loja. O cara deu uma geral na Tortuga, arrumou as marchas e limpou a corrente e os câmbios e não me deixou pagar pelo conserto. Disse que me eentendi e sabia como era difícil viajar de bicicleta no nosso país, queria contribuir de alguma forma com minha viagem. Agradeci muito e após uma agradável conversa segui para pier da cidade procurar algum lugar para passar a noite.

Assim que cheguei no pier encontrei 5 artesões, 2 casais (Jordan e Helena do Pará e, Adriano e Suelen de Parnaíba/PI) e Jeguinho (esse cara é uma lenda cheia de histórias) desde os 12 anos na estrada (BR). Todos estavam procurando um lugar para passar a noite e resolvemos juntar forças para encontrar algum lugar seco para dormir. Depois de muita conversa e por indicação de uma moradora da cidade, Jane, fomos bater em um pavilhão de sucatas da prefeitura, do lado de um estacionamento que também é da prefeitura. Essa noite nem montei a barraca, sobre uma chapa de compensado abri o saco de dormir e fiquei com a bicicleta do meu lado.

Acordei cedo, fiz um bom aquecimento e alongamento. Me despedi do pessoal e fui até o mercado público encontrar um lugar para tomar um café. O caminho de hoje me leva para mais um paraíso que virou ponto turístico cobiçado, Jericoacoara/CE.

Nomade de bicicleta!

Continuar...

Primeira parada: Lençóis Maranhenses!