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Bike na estrada!

Postado em Nordeste2017

Bike na estrada… tudo pode acontecer na próxima pedalada.

No dia 27 de fevereiro acordei cedo. Após uma boa noite de sono, acordar com os passarinhos e ter um café da manhã na companhia especial de dona Regina, mãe de Darlan ( pessoa que me recebeu via airbnb em São Luís/MA ).  Comecei a viagem propiamente dita… bike na estrada!!!

Objetivo era chegar em Morros/MA. Primeira cidade de parada no caminho para Barreirinhas, um pedal pretencioso para o primeiro dia, aproximadamente 90km, que virou muito mais por um descuido após toda a tensão na saída de São Luís.

Só existe uma opção para sair de São Luís por terra, e ela é tensa e perigosa. Tensa porque as pessoas vivem com medo, da violência, do assalto e das pessoas em geral, em um nível muito alto e constante. Todos fazem questão de exaltar o medo que sentem de serem assaltadas, agredidas ou assassinadas… principalmente se você estiver viajando com uma bicicleta cheia de bolsas chamando atenção. Perigosa porque a rodovia para sair da cidade está em obras a muito tempo (totalmente paradas nesse dia que passei), sem acostamento de ambos os lados da pista (um lado tem tanta pedra que é impossível pedalar, no outro simplesmente não tem acostamento - a pista acaba numa vala) e um barranco. O tráfego é muito intenso na rodovia, principalmente de caminhões. Os veículos tiravam “finas” que balançavam a bicicleta… muito, muito, muito tenso. E foi assim durante 27kms!!

conserto bagageiro

Quando sai dessa parte relaxei tanto que passei a entrada para Rosário, que dá acesso a rodovia estadual MA-402, em Bacabeira, 18kms que se tornaram 36km!!! Nesse meio tempo o bagageiro dianteiro quebrou e tive que fazer uma “gambiarra” para consertar. Um adendo aqui é que essa “gambita” durou a viagem toda e foi melhor que presilha original do bagageiro, que era de uma liga de metal.

Também foi nesse primeiro dia que aprendi sobre as chuvas de inverno da região, literalmente um dilúvio. Sempre acompanhado de um calor intenso! Esse foi o único dia da viagem que pedalei de bermuda, todos os outros foram de calça e camisa comprida. O sol é muito intenso e realmente queima, ou melhor, cozinha!! Se você prestar atenção nas pessoas que trabalham todo o dia no sol, nas rodovias ou no campo, vai perceber todas usando roupas compridas e muita proteção na cabeça. Aprendi com eles e após desse dia não “bobiei” mais, não podia correr o risco de sofrer uma insolação muito forte ou desidratação. Andava bem protegido e bebia muita água. Andava com uma mochila de hidratação de 2litros e mais 2 garrafas de 1,5litros, totalizando 5litros de água sempre comigo. Foi normal reabastecer todas as garrafas, até mais de 1 vez, durante os dias de pedal.

Cheguei em Moros lá pelas 17hrs, depois de aproximadamente 140km. Não tenho certeza absoluta da quilometragem desse pedal porque o início foi tão tenso que esqueci de ligar o strava nas primeiras horas de pedal. Mesmo assim registrei 112km.

Se você está interessado em acompanhar o trajeto, todo o mapa está aqui. Ele foi gerado a partir dos registros do strava, então, se você também tiver interesse de ver cada trecho separadamente, pode verificar ele no perfil do strava.

Infelizmente não tirei fotos nesse dia, foi tudo tão intenso e ao mesmo tempo ainda não tinha encontrado meu ritmo de pedal para viajar longas distâncias com a bike pesada. Assim me concentrei totalmente no pedal e suas dificuldades que nem lembrei de fotos…

Um detalhe muito interessante desse dia é que comecei a sentir, com muita força, a diferença das pessoas da cidade e de quem mora afastado dela. Já tenho essa diferença como algo óbvio, mas a escala de percepção aumentou muito durante a viagem.

É normal nessa região encontrar povoados pequenos, só com algumas casas de poucas famílias ou então todas casas serem da mesma família. Foi num desses povoados que o bagageiro dianteiro quebrou. Naquele momento estava voltando os 18km que tinha andando no sentido errado, já tinha pedalado cerca de 80km no total, estava muito quente, era quase 1 hora da tarde e ainda não tinha almoçado. Quando o bagageiro quebrou, eu realmente fiquei um pouco decepcionado e preocupado com a situação, não estava processando tudo aquilo muito bem. Foi quando, de repente, percebi uma pessoa parada ao meu lado olhando para a bicicleta tão interessada quando eu em descobrir o que tinha acontecido.

Não consigo me lembrar o nome dele, mas ele percebeu que as coisas não estavam bem. Conversamos um pouco e ele me convidou para almoçar sentado à sombra de sua barraca antes de tentar consertar a bicicleta. Enquanto pegava o almoço (que tinha preparado na noite anterior), ele foi buscar uma garrafa de 2 litros de água bem geladinha. Ficou ali sentando comigo conversando enquanto almoçava, explicou que as casas do povoado eram todas de sua família, me disse pra ficar tranquilo que ninguém ia mexer na bike (que estava do outro lado da rodovia com os alforges esparramados no chão).

Depois de almoçar estava mais tranquilo e alimentado. Voltei minha atenção para Tortuga (nome da minha bicileta) e surpreendentemente consertei ela em 15minutos. E ficou muito bom! Assim pude seguir viagem e chegar em Morros.

Acredito que a cidade de Morros/MA tem esse nome porque pra chegar lá tem muuuuuito morro pra subir e descer. Chegou um momento que dava vontade de chorar quando via uma descida, porque logo ali na frente tinha uma subida, e que subida!! Fiquei nesse sobe e desce nos últimos 30km do dia.

O primeiro dia de pedal foi pra espantar todos os medos. Depois desse dia entendi que por mais difícil que fosse qualquer situação, se eu estivesse mais calmo, em paz, com o coração aberto para viver tudo… eu estaria presente para viver essa viagem, que muito mais que um caminho com um distância específica entre locais, seria para dentro de mim mesmo.

Deixar fluir… fluir, a vida é como um rio… um segundo separa quem eu sou de quem eu era.

Gratidão!

Nomade de bicicleta!

Continuar...

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